O gato preto

foto por Psekkel

Segunda-feira, pior dia da semana, acordo com um baita sono. Tenho uma alergia na barriga que me deixou acordado até as três da madrugada, com a barriga em carne viva, sangrando, e pensando se devia ou não correr até a farmácia e comprar xylocaina. Quando finalmente dormi, sonhei que o cancêr da minha mãe havia voltado, e com complicações. Sonho de merda, noite de merda e agora eu to no busão falando merda com um amigo meu que passava os recreios da escolinha se dando choques eletricos.
Estou indo encontrar meu pai, para ajudar ele com um trampo. Mesmo tendo morado no bairro por dezessete anos eu consigo me perder e chegar meias hora mais tarde do que eu tinha planejado de me atrasar. Estou andando num sol escaldante justamente no dia em que decidi combater o meu vício de tomar mais de dois litros de coca-cola por dia. Tenho uma espécie de magnetismo, os maus hábitos sempre me encontram não importa onde esteja.
Apesar de com sono estou ansioso, o que é contraditório eu sei… mas você vai ter que engolir essa. Estou ansioso por que tenho uma compulsão por machucar minha bochecha com o dente do ciso que está nascendo na vertical, e lutar contra essa compulsão me causa uma tremenda inquietação. Estou lutando comigo mesmo, tentando me salvar e destruir ao mesmo tempo.

No apartamento do meu pai, eu tenho uma reação alérgica a qualquer coisa, enquanto estamos montando as luzes para uma foto, meus olhos começam a inchar, meu nariz dói e espirro o tempo inteiro. Bom, foi pra isso que Deus inventou mangas compridas. E eu as uso apesar do calor, segurando um copo de groselha gelada numa mão e tentando enxergar o que estou fazendo.
O telefone toca, é minha namorada – Oi Narizinho – não consigo identificar o tom em sua voz – Posso te ligar em cinco minutos? Não posso falar agora – e eu não podia mesmo, mas ela insiste – O que eu tenho pra dizer é rápido, eu esqueci meus cigarros na sua casa, e se você pudesse não fumar tudo eu ia passar pra pegar depois – Claro, eu já estava mesmo planejando, enquanto ela falava, voltar correndo para casa e fumar três maços e meio (se minhas contas estiverem certas, mas acho que estão) dos cigarros dela. “Passa lá” eu respondo sem entender nada. Ela diz que vai assistir um filme com a mãe e que passaria lá umas sete horas da noite. Cinco minutos depois, como eu havia dito, ligo para ela para o habitual “tudo bem com você??” “Acordou bem?” que havia sido negligenciado na primeira ligação.
Algumas horas mais tarde é ela de novo no telefone – Narizinho, to indo pra sua casa agora. Você pode ligar e ver se tem alguém lá – Sem entender por que EU deveria fazer isso, mas sem querer perder tempo questionando eu respondo que sim. Ligo pra casa e confirmo. Depois retorno pra ela. Ocupado. Segundos depois é o meu telefone que toca – Então amor, eu já liguei e confirmei – Um ponto de interrogação se forma visílvel no ar e flutua sobre a minha cabeça. – Mas então por que você pediu que eu ligasse? – Ao que ela responde – Ah! Fiquei esperando você retornar e você não ligou. – e eu escuto uma voz na minha cabeça, mas não a minha “Isso é pra você aprender a deixar de ser trouxa”. Eu ignoro a voz sigo a conversa:
-Então, você vai fazer alguma coisa hoje?
-Hmm.. Não, por que?
-Eu tinha pensado em passar ai mais tarde.
-Ah! Ta bom, pode vir, vem sim.
-Ok, beijos.
-Beijos.

Quase no fim do expediente liga a minhã mãe, avisa que vai passa por perto e que pode me dar uma carona as 10 horas. Respondo que tudo bem, e peço que me ligue quando estivesse voltando. Sem problemas.
9:15. Trampo encerrado, pelo menos por hoje. Meu pai, apesar de estar atrasado me me oferece uma carona já que estou com uma puta alergia desgraçada. Como tenho outra mais tarde, eu passo.
Fico no apartamento fingindo que sei fazer anéis de fumaça, enquanto Murphy, o gato preto, me olha fingindo que está interessado. Com meus olhos inchados, eu vejo o monitor do pc fingindo que deu pane. Mas o relógio marca 10:15 e nada da minha carona ainda. Pego o telefone e ligo pra minha mãe. Meu irmão atende “a mãe saiu e esqueceu o telefone aqui”. Merda eu penso, e o meu cel. Acabou a bateria, nada de carona agora, to fodido.
Desço de elevador e saio cambaleando pela rua, afim de um cigarro, e uma coca-cola – é um péssimo dia para vencer maus hábitos – eu penso em voz alta caminhando para a padaria. Como sempre tudo é uma desculpa para voltar aos velhos hábitos, eu sei disso e não dou a mínima, eu gosto de pensar que sei o que estou fazendo e saber o que estou fazendo significa ter consciência de quando estou fazendo merda.
Na porta da padaria um sujeito grande me impede de entrar. “Estamos fechando”. E o Universo – ha ha – rindo da minha cara. Correntes de azar são uma das coisas mais curiosas. É incrível como pequenas coisas podem estar em tanta sincronia a ponto de fazer tudo dar errado. Parecem milimétricamente pensadas e planejadas. Não tinha duvidas de que forças misteriosas estavam agindo contra mim, logo, não achava que fosse melhorar tão cedo.
Em um boteco mais pra frente meus cinco reais e cinquenta centavos me rendem um refrigerante e um maço de cigarros -ha ha – eu riu de volta para as forças misteriosas. Má idéia.
Pego o ônibus na Consolação. Está lotado, mas eu consigo um lugar pra sentar, do lado de um sujeito estranho que parecia estar dormindo. Não sei se estava de fato, ou se somente fingia para pressionar suas pernas na minha. Nunca vou saber. Um sujeito gordo meio fedido para de pé do meu lado. Sua barriga fica roçando no meu ombro enquanto o as pernas do espertinho ao meu lado terminar de me espremer.
Perto do ponto eu levanto. Longo caminho até a porta. O texto “Esse veículo irá Transporta-lo com conforto e segurança, cuide bem dele” colado na janela me da vontade de quebrar tudo. Resisto. Chego à porta e desço. Mais um quarteirão e meio até a casa da minha bela namorada. Estava salvo, o que mais poderia me acontecer.
Chego sem problemas e toco a campahinha. 5 minutos depois toco de novo, e de novo. Abro o portão e bato na porta, chamo o cachorro que vem correndo. “Vai lá chamar ela” eu digo pra ele que me olha como se eu fosse maluco e por fim vira a bunda pra mim com descaso.
Vou até a campahinha de novo. Nada. Procuro um orelhão, acho um do outro lado da rua, “Yes!” eu penso, consegui. Chegando lá o orelhão está quebrado. “No!” eu penso. Estou na merda. Volto para a campahinha. Desisto. Vim saber mais tarde que ela havia dormido no sofá enquanto assistia televisão.
Desço até a avenida, é um pouco longe, mas tem um orelhão que finciona. Ligo três vezes e ninguém atende. “Puto da vida” eu atravesso a rua para ver o ônibus que segue em direção à minha casa saindo, mas não consigo chegar a tempo.
Sentado no ponto fumando um cigarro eu vejo um arranho de flores do outro lado da rua, ao lado de uma garrafa de bebida, colocados ao lado de uma vela acessa e algumas tranqueiras a mais sobre um pano vermelho. Era a macumba mais bonita que eu já tinha visto. Tive um calafrio. Não sou supersticioso, mas do jeito que as coisas estavão indo aquilo ali já era demais.
Alguns minutos depois eu pego o “busão” pra minha casa, e chego lá sem incidentes por volta das 11:45. Estava arrasado, cansado e nervoso. Entrei em casa, não cumprimentei ninguém. Entrei direto num banho de sal grosso.

Mais tarde um amigo veio me lembrar que as coisas podem sempre ficar piores. “Quando você acha que já perdeu tudo, você descobre que sempre perder um pouco mais” mais como canta Bob Dylan em “Trying to get to Heaven”.
Sentei com os pés na janela e acendi um cigarro. Pensando sobre o que aconteceu, tive um ataque e comecei a rir.

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~ por psekkel em janeiro 24, 2009.

10 Respostas to “O gato preto”

  1. tche/na real cara/parece um verdadeiro diario de um ser humano normal com um monte de noias/ nao sei tua idade e nem procurei saber porque nao importa/ o tempo somente nos faz nao esquentar a cabeça com nada a nao ser pela sobrevivencia/bacana o texto cara/ nao sei onde queres chegar mas se depender de mim tu consegue/gosto de gente autentica. fui.

  2. Veja só que bonito, ao menos você não riu da desgraça alheia, só da sua mesmo!
    Que dia de merda ein?!
    Culpa do Murphy!! rs
    Mas acontece nas melhores famílas!

  3. Olha só que bonito, você riu da sua própria desgraça e não da desgraça alheia!
    Que exemplo!
    Tem gente que não acredita, mas sem precaver contra mau olhado, olho gordo, urucubacas, e zicas em geral até que é bom!

  4. Olha tem dias em que rir da desgraça é a unica forma de não pirar.. enfim, eu disse pra escrever isso.. ficou muito bom cara, Litle proxiga neste caminho.. hey o Mundus entrará na mais nova campanha Fora Batisti? demoro hein!

  5. Só falta o mundus na campanha FORA Batisti.. vamos la q da dando o que falar a campanha

  6. niilista, cínico e desengonçado. gostei muito, mas prefiro posts como o da para nóia: reais, crus e honestos.

    na minha cabeça fantasiosa, vou fingir que esse foi um dia REAL pra você e que você só transmutou em forma de conto pra tentar deixar mais interessante.

    beijos da stalker.

  7. Oi Bel, obrigado pelo comentário. É sempre bom ver você por aqui.
    Quanto ao conto, bom… essa é a graça, você nunca sabe ao certo o quanto é verdade. Mas não é assim com qualquer história? O passado a gente muda a cada dia…
    Talvez vc leia mais coisas verdadeiras em meus posts do que está disposta a acreditar… afinal a realidade é sempre mais bizarra que a ficção.

  8. hauhauhauahau… tem dias q a gente nao deveria nem sair da cama…

  9. sonhar com gato preto de olho vrmolho da azar ou sorte

  10. Sorte

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